Em nome da Pátria, da Dignidade e da Sagrada Esperança

setembro 29, 2016

... quando o servilismo  for destronado pela competência na guerra de acesso a cargos públicos, quando os novos portadores de esperança se impuserem, quando deixarmos de nos matar uns aos outros só porque não somos capazes de nos entendermos, poderemos, em nome da sagrada esperança, exigir que, definitivamente, “cantem o mar e a terra que a nossa luta fecundou”.
                                                              
                    


"Uns sentem a chuva, outros sentem-se molhados".



Em nome da Pátria, da Dignidade e da Sagrada Esperança

E enquanto não podemos nos entender
porque só um lado de nós cresceu,
temos de nos matar uns aos outros.”
Luandino Vieira,
in “Nós, os do Makulusu


Não há nenhum povo que tenha feito mais sacrifícios para recuperar a sua soberania e dignidade do que o povo guineense. Não conheço nenhum povo que tenha abraçado de uma forma tão decidida e espontânea os ideais de liberdade e independência como o povo guineense. Não consigo imaginar nenhum povo que esteja hoje tão constrangido na expressão da sua dignidade e com a esperança num futuro melhor tão debilitada como o povo guineense.
A nossa Guiné-Bissau transformou-se num djongagu com o qual nenhum dos seus filhos parece saber/poder lidar. Mergulhada numa crise cada dia mais profunda – e sem fim imediato à vista – o país tem o presente envenenado, o futuro hipotecado e corre um risco sério de ver o passado contrafeito. De desilusão em desilusão fomos ficando cada dia mais longe daquilo que foi o sonho de emancipação que tanto marcou e empolgou a minha geração.
Como foi isso possível? Como é que conseguimos chegar tão depressa a esse nível de frustração colectiva tão generalizada sem que houvesse alguém ou algo que nos interpelasse, que sacudisse a nossa “consciência patriótica”, que nos levasse a erradicar de uma vez por todas esse macbethiano djunda-djunda pelo poder que a todos tanto entristece e empobrece? Com que magia fomos capazes de transformar, em menos de uma geração, o nobre espírito da luta na famigerada política de the winner takes all?
Será uma mera questão de amontondadi, como insinuam os revoltados cantores de rap? Será porque, profundamente compenetrados nas lutas intestinais pelo poder, nos rendemos à ideologia do tafal-tafal? Ou será que foi simplesmente porque só um lado de nós cresceu ?

Das ist zum kotzen
Quando comecei a aprender a língua alemã, do zero absoluto, num outono rico de eventos, tinha uma certeza inquestionável: ia dominar aquela língua. Nem os sons de difícil pronúncia, nem a complexa estrutura gramatical, nem tão pouco as exageradamente longas palavras, iam impedir isso. De onde vinha tanta certeza?, pode-se perguntar hoje, mas não naquele tempo. Cinco anos depois da proclamação da independência, era o tempo em que vencer era a nossa sina. Era cidadão de uma orgulhosa ‘nação africana forjada na luta’, onde todo o cidadão voluntariamente se predispunha a dobrar o mundo ao meio, se assim o Partido ordenasse.
Era a oitava língua que estava aprendendo, quatro das quais sem nunca ter tido a oportunidade de recorrer a um dicionário, glossário, ou nada que se lhe parecesse, para descobrir o significado de uma palavra nova. Em quatro ocasiões anteriores tinha-me desenrascado sempre sozinho. Dei-me conta agora de que nunca dantes me tinha dado conta desse facto!
O uso da palavra era arte. E como toda a arte, ela tem uma finalidade: dar expressão aos nossos sentimentos. Visto nessa perspectiva, o significado de uma palavra desconhecida engendrava sempre uma componente de subjectivismo. Talvez por isso, o significado (ou significados) não se perguntava, descobria-se. Perguntar era uma declaração de infertilidade intelectual a que ninguém se atrevia a expor-se. O sentido da palavra desconhecida estava assim sempre ao alcance da nossa imaginação.
Foi com esse espírito de liberdade e criatividade no uso das palavras e expressões que encarei o aprendizado da língua germânica e que me permitiu mais tarde ‘descobrir’ um significado original de uma expressão que passou a ter um valor especial para mim: “das ist zum kotzen”.
Quando, depois de uma experiência laboratorial mal sucedida, ouvi a frase pela primeira vez, algo de extraordinário aconteceu comigo: senti-me reconfortado. Não sabia o que exactamente significava a expressão, mas tive a certeza absoluta que reflectia aquilo que ocorrera instantes antes e o sentimento de fracasso que em mim deixara. Lembro-me perfeitamente de ter repetido a frase, alto e bom som, bem como do efeito paliativo que isso causara em mim. Era a magia que vinha da arte de ‘koba mal’ na língua mandinga, conjugada com a vivacidade da língua balanta.
Mas tarde soube que não era exactamente aquilo que imaginara, que aquela frase significava somente ‘isto é enjoativo’, mas decidi ficar com o significado que inventara. Não encontrava em nenhuma das minhas línguas maternas nada que exprimisse de uma forma tão fiel a sensação de frustração, de revolta, de falhanço (tudo isso ao mesmo tempo), como esta pequena frase. Por isso, perante esse permanente flagelo nesta minha Pátria Amada, stressa-me tanto não ter que, também permanentemente, declarar: Das ist zum kotzen!

A vitória dos ideólogos do tafal-tafal
A situação que o país tem vivido tornou-se uma verdadeira afronta para a quase totalidade dos guineenses, exceptuando, obviamente, os novos guardiães da tabanca, que da anarquia têm feito o seu principal trunfo quer para seu enriquecimento ilícito, quer para a promoção da ideologia do tafal-tafal.
O país que nasceu com tudo para se afirmar como uma nação de “Paz e Progresso” (está registado no Hino Nacional!), transformou-se paulatinamente num extenso ‘kau di tchur’, onde o povo canta chorando e chora cantando. Quem da minha geração seria capaz de imaginar que depois da epopeia da libertação do colonialismo e quando tudo, finalmente, prometia passar a ser pacífico e harmonioso, teríamos que assistir, pequenos e impotentes, a tamanha catástrofe?
Excedendo as previsões mais ‘reaccionárias’ da época, e contrariando as aspirações mais elementares a uma vida digna e condigna, o nosso sol desapareceu cedo demais (1980?) para não mais voltar a arder…  E entre intentonas e inventonas  aos bocados fomos aprendendo a renunciar aos ideais. Ou a traí-los.
Perante a miséria generalizada que se instalou – e como estratégia para se fazer face ao dilema da sobrevivência – tentámos encontrar refúgio onde nunca nos imaginámos. Talvez por isso, a elite política guineense desenvolveu novas habilidades e capacidades. Sem pejo nem pudor, assumiu a mendiguice como um desígnio nacional, perdendo a noção do ridículo e, ainda pior, a consciência de que, ontem como hoje, “por mais quente que seja a água da fonte, ela não cozerá o teu arroz”.
Por isso assistimos ao florescer de artefactos que minam os alicerces da identidade nacional com a maior naturalidade. A fragmentação dos catalisadores da coesão social não nos aflige, nem tão-pouco nos incomodam os recorrentes escândalos no sector da justiça ou o iminente colapso do sistema educativo.
Vergamo-nos. Sem honra nem glória…
Daí que quando os novos guardiães da tabanca surgem nas suas vestes de aprendiz de feiticeiro, exuberantes e fanfarrões, até fazem encolher o céu. E a terra, a nossa terra, humilhada e desonrada, manifesta-se ao mundo em toda a sua imensa pequenez. Das ist (wirklich) zum kotzen!

“Some people feel the rain; others just get wet.”
Mas e agora? O que fazer perante tamanho descalabro? Como (sobre)viver com/a tanto kasabi pessoal e colectivo sem enlouquecer ou ter que renunciar aos ideais da juventude? É alimentar a onda ou perseverar na busca dos fragmentos da paixão amputada?
Entre a resignação e o suicídio deve haver certamente uma alternativa mais compatível com os nossos sonhos, mais consentânea com o nosso sentido de dignidade.
Resignar-se é trair. É assumir-se como ‘lan di polon na bentu’, uma atitude que não se coaduna com o estatuto de lambé. Quem um dia teve o privilégio de sonhar com uma nação a ‘renascer das cinzas para se tornar no mais belo jardim do mundo’ não tem a opção de trair. Tem é a obrigação de resgatar a capacidade de sonhar, de fazer ressuscitar a crença na afirmação dos portadores de esperança, mesmo quando essa crença aparente às vezes situar-se para além da utopia.
Utopia? Não, é possível fazer o nosso sol arder de novo! Não, é possível recriar o país com que sonhámos! Não, é possível livrarmo-nos do ciclo de lebsimenti sem companheiro, que tem feito com que até politiqueiros falhados de outras paragens ambicionem aqui dar-nos lições de boa convivência como se bestas fôssemos.
Como? Em nome da Pátria Amada podemos voltar a ter o professor a estudar mais para ensinar melhor; podemos levar o juiz a despir as vestes de gigolô e adquirir sentido de justiça; podemos ambicionar ter uma classe intelectual ciente dos seus compromissos históricos e não tão prostituída; podemos exigir que aqueles que do alto das suas posses decidem sobre a política da energia sejam ao menos conhecedores da lei de Ohm; podemos até recuperar Karache e fazê-la povoar só pelos ideólogos do tafal-tafal e demais apóstolos da desgraça.
Em nome da dignidade, devemos, depois de mais de quarenta anos de pleno exercício do direito à autodeterminação, reclamar maturidade e deixar de ter imbecis a brincar de governantes; devemos, após vinte anos de multipartidarismo estéril, exigir que os votos sejam doados com base em programas de governação assumidos e não na sacrossanta solidariedade étnica.
E assim, quando o servilismo e a vassalagem forem destronados pela competência e mérito na guerra de acesso a cargos públicos, quando os novos portadores de esperança se impuserem e virmos erradicada a política de the winner takes all, quando crescermos – o suficiente e de ambos os lados – e deixarmos de nos matar uns aos outros só porque não somos capazes de nos entendermos, poderemos, em nome da sagrada esperança, exigir que, definitivamente, “cantem o mar e a terra que a nossa luta fecundou”.
Ecoando pelas lalas de Kubukaré e florestas de Kobiana até se confundir com as quedas de Kussilintra, é essa canção que redimirá toda a minha geração, libertando-me a mim desse trauma que suscita a sensação que dá pela expressão ‘das ist zum kotzen’.
Utopia? Mera utopia? Pouco me importo, pois na íntegra subscrevo a posição do escritor e matemático Georg Lichtenberg em como "Ich weiß nicht, ob es besser wird, wenn es anders wird. Aber es muß anders werden, wenn es besser werden soll"[1].


[1] Não sei se será melhor se for diferente. Mas terá que ser diferente para ser melhor.