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Da importância do conto tradicional à pertinência da criação de um Prémio Literário Nacional

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    O conto tradicional é uma compo­nente de suma importância do nosso património cultural imaterial. Trata-se de uma riqueza criada e aprimorada ao longo de séculos, ocupando um lugar de destaque entre os eventos culturais comunitários, com uma vertente lúdica e pedagógica de máxima relevância, nesta e noutras zonas de África. Neles estão cristalizados saberes, crenças e valores que moldam a sociedade e que de uma forma bastante simples e pragmática definem os conceitos de justo e injusto, de certo e errado, de bom e mau, assim como o valor que a sociedade unanimemente atribui a cada um deles. Actualmente – e à semelhança do que tem vindo a suceder com outras componentes desse património – o conto tradicional tem vindo a sofrer uma erosão deveras preocupante, perdendo cada dia mais espaço e atractividade em favor de outras práticas, produtos e ofertas que pouco ou nada têm a ver com a nossa tradição. Com a facili­dade de acesso a equipamentos de entretenimento e conteúdos...

Crónica de uns livrinhos abençoados

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  Terá sido por acaso? Não creio. É que acredito tanto em obras do acaso quanto nos milagres. Mas o certo é que os livrinhos chegaram do longínquo Canadá e... foram parar às mãos de crianças de uma tabanca isolada, membros de famílias das mais carenciadas do país. Aconteceu há uns anos atrás e sem que nada o deixasse prever. Depois de me instalar na minha nova tabanca e de cumprir com as imposições tradicionais para ser aceite como ‘ fidju di tchon ’, tinha chegado o momento de me dedicar a uma das minhas missões não confessadas: contribuir para a elevação do nível da literacia na comunidade.     Enquanto procurava as vias mais adequadas para a concretização dessa ambição, não é que me chega  um email da Profa. Giselle Ribeiro (UNILAB), informando do desejo de uma colega sua, a Profa Inês Cardoso (York University), de identificar uma “ comunidade com carência de acesso a materiais de leitura ” para efeitos de doação de livros... O resto da história é narr...

Uma questão de panorama?

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Orando , no dia 16 de Janeiro, o tema "O novo panorama das TIC" no âmbito da Semana Académica da Universidade Amílcar Cabral, organizada sob o lema "Pensar para melhor agir" e cujo propósito é  reflectir em torno dos principais desafios que se colocam actualmente ao ensino superior na Guiné-Bissau. Tive a honra de, pela segunda vez consecutiva, ser convidado pela Reitoria da Universidade Amílcar Cabral para colaborar na Semana Académica organizada sob o lema “ Pensar para melhor agir ”. O objectivo declarado é “promover uma reflexão sobre temas pertinentes que enfrenta o ensino superior da Guiné-Bissau” (sic). Num momento em que o país dá sinais preocupantes – hoje mais do que nunca – sobre a banalização do conhecimento e caminha vertiginosamente para o colapso do sistema educativo, incluindo a nível do ensino superior, achei a oportunidade propícia para falar de um capítulo de um dos meus próximos livros, nomeadamente sobre “O novo panorama das TIC na er...

Pabia di pabia

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Por que estou sentindo esse desejo de quebrar essa tradição, muitas vezes tão conveniente, de seguir o exemplo do Katchurmangu , segundo o qual “kada kin sibi di sil”? Diz-se que o voto é secreto. Concordo e apoio. Que assim continue a ser e para todo o sempre. Nunca tive necessidade de revelar, nem antes nem depois de votar, as minhas opções, exceptuando, naturalmente, no círculo restrito de familiares e amigos. Mas desta vez o meu voto não será secreto. Vou revelá-lo para todo o mundo saber e com a devida antecedência. Porquê? Por que estou sentindo esse desejo de quebrar essa tradição, muitas vezes tão conveniente, de seguir o exemplo do Katchurmangu , segundo o qual “kada kin sibi di sil”? É que nunca foi tão fácil optar! Acreditem-me. Nunca senti a necessidade tão-pouco de me explicar relativamente às minhas opções quando se trata do exercício dos meus direitos básicos, cívicos, constitucionais. Mas desta vez decidi quebrar também essa tradição. E fá-lo-ei alto e bom...

Plaidoyer para uma nova identidade guineense

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Aos escritores guineenses está reservada uma missao especial: Forjar um genuíno ‘senso de perspectiva’, consubstanciado na inabalável crença na renascença e nos novos padrões de identidade, que fará acalentar a certeza de que, sim, a profecia será concretizada: “Nós vamos construir na pátria imortal a paz e o progresso”. Setembro é um mês especial na nossa terra. É a altura do ano em que se renovam as esperanças e se alimentam os espíritos para um ano inteiro. É o início da época da colheita: milho, tifa, pepino, mancara em abundância, para saborear assado ou firbintido, como petisco ou mesmo para djanta-ku-sia. Nas bolanhas e nas florestas as plantas ganham robustez e um verde exuberante. Dos rios e das lagoas chegam bentanas para todos os gostos e sabores, esquilões en pagaille. Marcando o início do fim da época chuvosa, Setembro é também a altura de marcar as datas dos mais relevantes eventos nas comunidades, quer sejam elas rurais ou urbanas: das cerimónias de toka-tchur às de...

Um Régulo para a estação chuvosa

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  Este país tem-nos habituado a muitas surpresas. E tanto assim tem sido que, por conveniência ou por autocomplacência, muitos de nós têm vindo a adoptar uma postura que, vista de fora, pode indiciar atitudes ambíguas como resignação, diskarna ou até mesmo indiferença. “ Djitu ka ten ”, tem sido o credo daqueles que, de desilusão em desilusão, desenvolveram a habilidade de inventar antídotos para todos os kasabi desta terra. E não têm sido poucas, essas situações que desembocam nos tais kasabi . Uma dessas situações é a que foi gerada pelo discurso com que o PR brindou os cidadãos guineenses, aqueles que demonstraram o elevado sentido patriótico de ouvi-lo, no último dia do seu mandato de cinco longos anos. Eu gosto do teatro, que me seja permitido confessar isso mais uma vez e antes de mais nada. Mas do teatro como expressão artística, feito com o mínimo de profissionalismo, sobretudo quando ao talento dos actores se junta alguma criatividade do encenador. E quanto mais...

Por um teatro total (*)

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Resgatar da tradição e incorporar no teatro moderno a canção, a dança e a música é o que sugere o conceito de teatro total. Transcendendo as limitações do verbo, o teatro total subordina a palavra a esses elementos, com os quais é compelida a formar uma unidade harmoniosa. Quando, na trágica estação chuvosa de 1998 e refugiado longe de casa, vi-me pela primeira vez numa situação de ter que aventurar-me no mundo da dramaturgia, não tinha plena consciência do que isso implicaria. Ignorando o facto de o meu país ter sido transformado num palco de (mais uma) guerra, um amigo meu, encenador, intimou-me a fornecer-lhe um texto para uma peça teatral. Não sendo propriamente um convite, não tive como me desenrascar. Reconhecendo todavia a minha incompetência na matéria, esse amigo deu prova de muita generosidade: indicou-me um tema, forneceu algumas referências bibliográficas, sugeriu uns DVDs, apontou um prazo para a entrega do manuscrito e deixou uma mensagem que era suposto ser de co...